Prefeitura de SP cortará 50% do salário dos artistas do Theatro Municipal

A Prefeitura de São Paulo anunciou que irá cortar 50% do salário dos artistas do Theatro Municipal no final deste ano. O desconto será temporário e parcelado em dois meses, outubro e novembro.

Cerca de 279 profissionais, que fazem parte do Coral Lírco, do Quarteto de Cordas, do Balé da Cidade, da Orquestra Sinfônica e do Coral Paulistano serão atingidos. Os demais funcionários – técnicos e do setor administrativo -, além do alto escalão do Theatro, ficaram de fora do desconto.

O acordo já foi fechado com os funcionários, mas deve ser homologado só em setembro, após uma nova organização social assumir a gestão do Theatro.

Com o desconto, a Secretaria Municipal de Cultura prevê uma economia de R$ 3 milhões. O valor, segundo a pasta, ajudará a diminuir o atual déficit nas contas “causado pelos episódios de desvio de recursos públicos, ocorridos durante a gestão passada”.

Irregularidades em contratos

Em março deste ano, a Justiça determinou a suspensão dos contratos assinados entre a Fundação Theatro Municipal de São Paulo e a organização social Instituto Brasileiro de Gestão Cultural (IBGC), que administrava o local. A determinação se deu após o Ministério Público identificar indícios de desvios de recursos e pagamentos ilícitos na relação entre a Fundação e a organização, que, segundo promotores, geraram prejuízos que ultrapassavam R$ 15 milhões.

Na decisão judicial, ficou definido que o poder público municipal ou a Fundação Theatro Municipal deveria reassumir a gestão do Theatro em um prazo de 90 dias. Em caso de descumprimento da decisão, foi fixada uma multa de R$ 10 mil por dia.

Orquestra Sinfônica

Violinista da Orquestra Sinfônica há 14 anos, Ricardo Bem-Haja revela que o secretário de Cultura, André Sturm, procurou pelos representantes dos corpos artísticos propondo uma redução de 60%.

“Ele chamou para uma reunião os representantes de todos os corpos artísticos. Inicialmente a proposta era 60%, sendo 30% em dois meses, ainda sem acertar em quais meses seriam. Cada grupo levou até os representados, tentamos explicar como funcionava a coisa. Teve bastante dúvida do porquê, do quanto essa porcentagem ia resolver os problemas financeiros”, explica.

Durante as tratativas, os artistas conseguiram reduzir o desconto e garantir algumas contrapartidas. Ficou definido, por exemplo, que não haverá demissões até março de 2018 e o valor cortado será pago, de alguma forma, até o final do próximo ano.

“Conseguimos esticar a estabilidade, que ele tinha prometido até dezembro, para 31 de março de 2018. Também ficou acordado que se for conseguido patrocínio, paga-se em dinheiro, preferencialmente”, destaca Bem-Haja.

Balé da Cidade

Representante da comissão do Balé da Cidade, a bailarina Fernanda Bueno, membro da companhia há nove anos, revela que a Secretaria de Cultura também sugeriu uma redução de jornada durante o período do corte – o que não foi aceito pelos artistas.

“Ele [André Sturm] propôs redução da jornada de trabalho, mas os artistas da casa não quiseram. Isso interfere na nossa programação. Não queremos que a programação do Theatro e o nosso trabalho seja afetado. Eu trabalho seis horas. Não vou dançar meio balé”, defende.

A decisão coletiva é também uma forma de resistência e autovalorização. “É uma maneira de invalidar o nosso trabalho e isso não podemos aceitar. O que a gente faz é bom, tem público, é cheio, casa lotada”, destaca.

No caso do Balé da Cidade, o segundo semestre começou prejudicado pela redução do número de integrantes. Dois bailarinos pediram demissão em julho e as vagas não devem ser preenchidas. “Não vai repor essas duas vagas, porque, já que está cortando, como vai fazer audição?”, questiona Fernanda. Atualmente, são 32 bailarinos no Balé da Cidade.

A bailarina afirma que a companhia já tinha sofrido redução com ações arbitrárias realizadas pela direção anterior. O grupo foi o último da casa a conseguir contrato com carteira assinada.

Fernanda destaca que o Balé da Cidade já foi composto por 40 bailarinos. Além de demissões injustificadas, a gestão que comandou o Balé de 2012 a 2016 instituiu níveis hierárquicos contrários à ideologia da companhia.

“O conceito é uma cidade em movimento, não tinha uma hierarquia. Todo mundo era considerado um solista em potencial. Todo mundo ganhava a mesma coisa”, relata. Hoje, os integrantes da companhia estão divididos em três faixas salariais – sendo que todos exercem a mesma função.

Tais problemas foram apresentados ao secretário de Cultura durante as reuniões de negociação do corte salarial que, segundo Fernanda, pareceu disposto a colaborar. “Ele está entendendo e se comprometendo, vamos ver o que vai acontecer.”

(Créditos: G1)