Você somente poderá ter entusiasmo se tiver paixão pelo que faz

Nada como escrever sobre algo que voce realmente viveu

 
Eu inicio o texto de hoje contando um fato que marcou a minha vida. Lá estava eu, na casa do empresário da cantora Ivete Sangalo, Fabio Almeida. E, enquanto ele brincava com os filhos e pedia pra mulher dele nos servir com água, milhares de situações passavam pela minha cabeça. “Como eu tinha conseguido estar ali?”, “Por que eu?”, ” O que vou dizer a ele?”, ” O que ele quer ouvir?”, ” Meu Deus, eu pedi uma reunião com ele, e aqui estou eu, com toda a liberdade do mundo pra falar o que eu quiser. E agora? O que falarei? Eu sabia, no fundo, bem no fundo, “na minha intuição”, que eu devia ser a mais verdadeira possível com ele, mas não foi o que eu escolhi fazer naquele momento. Eu achava que se eu fosse verdadeira, não conquistaría, não o faria acreditar em meu trabalho como cantora, e então fiz o que eu achei que o agradaria mais. Agora me diz: Por que a gente tem essa velha mania de ter certeza do que o outro quer que a gente seja ? E sabendo disso, a gente se mascara, e mostra algo que não é real, com a plena certeza de que vamos conquistar o outro?


Pra gente pensar: Como queremos conquistar o outro nos mostrando perfeitos? O que significa gostar do outro? Sentir-se a vontade com ele, certo? E, pra se sentir à vontade tem que rolar alguma conexão entre os dois lados. É só você pensar um pouco. Quando você se conecta com alguém, você se identifica com alguma coisa, certo? E isso faz vocês se aproximarem, não é mesmo? 

Pergunta chave: Como você quer que alguém se aproxime, se você se mascara, se mostrando perfeito? O ser humano não é perfeito, e ele só se conecta com as pessoas que tem coragem de mostrar suas imperfeições. Temos a velha ilusão de achar que quando assumimos nossas fraquezas, os outros se afastam, mas nessa estrada da música percebi que é o contrario. Ninguem quer estar ao lado de alguém que parece perfeito. A gente não se sente à vontade. A gente se inferioriza. E isso, sim afasta. Afinal somos todos iguais. Todos sentimos as mesmas coisas, por diferentes razões. 
 
Era pra ser uma reunião de negócios, e poderia ter sido, se eu estivesse alinhada com a minha verdade, e o meu proposito de vida. Mas, não precisa de muito pra perceber quando um profissional faz aquilo por dinheiro ou por ser o que ele realmente gosta, e Fabinho Almeida foi bem além comigo. Talvez ele nem saiba o quanto todas as palavras dele naquele dia foram importantes para mim. E, o quanto fez com que eu parasse de ir atrás das borboletas, e entao tomasse a decisão mais correta que um ser humano pode tomar, que é cuidar de seu jardim. Estar na casa dele era estar correndo atrás das borboletas. E sabe o que eu ouvi? Algo como: “Bruna, procure o que esta dentro de seu coração. Essa é a sua verdade? A música que você grava, é a musica que voce gosta?” Dentro de mim eu tinha plena certeza que não. Tudo o que eu fazia, eu fazia porque o mercado estava pedindo que eu fizesse (escritórios, artistas concorrentes, e até parceiros de rádios que se motivam com tendências). Mas, se eu dissesse a verdade naquele momento, ele nunca (na minha cabeça) gostaria de mim, e eu nunca teria chances de que ele me ajudasse em minha carreira.
 
Eu nunca vou saber o que realmente teria acontecido se eu tivesse sido verdadeira. Mas, eu tenho certeza que as coisas teriam sido diferentes. Não tô dizendo que não foi legal o papo. Pelo contrário, tivemos conversas longas sobre vários assuntos. Eu o ouvi muito. Não me coloquei tanto. Estava com medo de expressar as minhas verdades alí. Mas quando comecei a ouvi-lo, percebi que eu pensava como ele, e foi exatamente por isso que me identifiquei. Ele podia ter se identificado comigo também se eu tivesse me exposto, mas escolhi apenas ouvir. Tudo bem também. São escolhas. A gente paga por elas, claro. Mas, quando se trata de escolhas, não existe o que é certo, ou errado. Não existem erros, apenas resultados!
 
E, o resultado daquela tarde foi uma conversa de muitos aprendizados, mas o meu foco que era atraí-lo para o meu projeto, foi desperdiçado por conta de que naquele momento eu não sabia exatamente o que eu queria fazer, o que eu queria cantar, compôr, em que mercado da música eu queria atuar. No sertanejo? Axé? Musica pop ? Reggae?

Eu nunca gostei de me rotular, mas achava que era um problema não ter um rótulo, e hoje percebo que independentemente de você ter um rótulo muito bem definido, ou um 
marketing perfeito sobre a sua história e sobre o que voce é, as pessoas vão rotular como elas quiserem. Percebi que eu tava preocupada demais com o rótulo, com o externo, e esquecendo de olhar pra dentro. Não importava o nome do que eu fazia. O que realmente importava era se a minha arte era verdadeira. E a resposta é simples: é só olhar pra dentro.

O empresário de Ivete Sangalo ainda terminou dizendo que eu poderia continuar no caminho que eu estava, me fez diversos elogios, mas enfatizou que se eu continuasse a ter alguém como uma forte influência na hora de fazer o meu trabalho, eu me tornaria diluição desse alguém. Pra ser mais clara, ele disse que “ir na onda do que o mercado esta fazendo, ir na onda do que a maioria esta fazendo, é ir contra a sua verdade”, e além do mais, o mercado muda o tempo todo. Se eu vou na onda do mercado, e o mercado muda o tempo todo, eu vou mudar o tempo todo, certo? E, com isso perco a minha 
identidade. 
 
Depois desse dia, eu nunca mais me preocupei em fazer o que eu achava que os outros iriam preferir que eu fizesse. Precisei de uma busca interna, é claro. E quanto mais eu fui me conhecendo como ser humano, mais fui entendendo a minha verdade dentro da música. Eu não estava satisfeita com o que estava rolando no mercado atual da música, mas pra estar com a agenda cheia e com uma boa imagem, eu simplesmente fui na onda, esquecendo de quem eu realmente era, mas esse caminho custa caro. É passageiro. E, o mais impressionante disso tudo, é que descobri que quando você faz de tudo pra agradar alguém, você nao agrada. Nós admiramos as pessoas verdadeiras, que tem coragem de assumir coisas dificeis, que tem coragem de ser elas mesmas. E, ir na onda é totalmente o oposto de descobrir o seu propósito. Afinal, o seu propósito está altamente relacionado a você ser você mesmo. E se você imita alguém, com certeza está na direção errada. Nós viemos ao mundo para sermos nós mesmos. Existe um brilho diferente nas pessoas que conseguem expressar as suas verdades, e é o caso de Ivete Sangalo. 
 
Sua equipe sempre sera um reflexo daquilo que você é. Eu nem precisava conhecer Ivete pra saber que ela é um ser humano autêntico, afinal eu estava sentada com alguém de sua equipe, e ele me recebeu com o maior respeito pelo meu trabalho. Não só ele, como a equipe inteira dela. No final de nosso papo, ele disse que me deixaria cantar com Ivete em seu trio. Isso, no carnaval de 2016, e embora eu não tivesse conseguido vender o meu peixe pra ele ali naquela reunião, dá pra se tirar algo bom de tudo sempre. Além de ter comandado o trio dela ali com outros cantores naquele carnaval de Salvador (porque ela passou mal e não pode fazer o show), eu acabei saindo em todos os canais de tv, jornais, etc. Ivete postou agradecendo aos cantores que fizeram o show por ela, e meu nome estava lá, o que me fez ganhar muitos admiradores de meu trabalho no dia seguinte, rs. E claro, o aprendizado que tive sobre ter uma identidade e lutar por ela.

No texto sobre sucesso e fama (postado na semana anterior) falei muito sobre fazer o que se gosta pra sentir o sucesso. Sucesso é interno, e dentro do sucesso, existe o reconhecimento que é quando muitas pessoas admiram o seu trabalho. Agora fama é quando as pessoas gostam do seu trabalho mas você mesmo não se sente feliz.
Porque isso acontece? Exatamente porque você não está sendo fiel à sua identidade. Você percebeu que ganhei muitos “admiradores de meu trabalho” quando a Ivete me postou, certo? Mas, sinceramente aquilo não me fez feliz. Sabe por que? Porque eu sei que comecaram a me seguir porque eles são fãs da Ivete, e ela me postou. O que ganhei ali foi fama, e a fama como eu disse, é passageira. Provavelmente nos próximos meses, e anos, ela postaria outros novos talentos que ganhariam um pouco de fama, e depois, passaria. Normal. Muitos devem ter pensado que eu amei quando ela me postou. E não vou mentir que até gostei, claro. Me empolguei, mas passou, e eu voltei pra realidade. Por que? Porque ninguém que me adicionou, me adicionou pelo meu trabalho, e sim por uns poucos minutos de fama. rs E isso, por experiência própria, não preenche. Agora, quando eu faço uma música que eu amo, e apenas uma pessoa diz que amou e que se emocionou com ela, que a fez sentir alguma emoção, isso sim pra mim é sucesso e me preenche. Entende a diferença entre sucesso e fama? Que esta totalmente ligado a identidade. 

Você somente poderá ter entusiasmo se tiver paixão pelo que faz. Hoje eu faço as músicas que eu acredito, independentemente do que está rolando no mercado. Até porque eu não gosto do que esta rolando no mercado. Então escolhi não me vender, e trabalhar com a minha verdade. E apesar do caminho ser sim mais longo, ele não é descartável, é eterno, é construído. Antes, quando eu fazia minhas músicas, passavam alguns meses e eu já tinha vergonha e apagava dos meus canais na internet. Porque aquela modinha já tinha passado. Eu até deixei uma musica no YouTube desse meu momento modinha, que gravei na época do carnaval, em 2016. Se chama “Miga, sua Louca”. Mas, hoje as musicas que faço duram muito mais tempo, e provamente durarão pra sempre, pois tem alí a minha verdade. E o mais engraçado é que antes eu ficava tentando convencer as borboletas de virem até meu jardim, e quando eu conseguia finalmente trazê-las, adivinhem? Elas não gostavam do meu jardim. Hoje, eu cuido desse lindo jardim, e as borboletas certas sempre chegam, e o melhor? Elas não têm dúvidas de que aquele jardim que elas estão é aonde elas deveriam estar mesmo. 
 
Bruna Pinheiro 
 
 
Difícil é desassociar este assunto de fama e sucesso, que como a Bruna mencionou, foi abordado na semana passada. O que vivemos é uma sociedade frenética, movida de impulsos e ímpetos. Nossas crenças e máscaras sociais começam a serem construídas na primeira infância, dentro de casa. Afinal, nossos pais sabem muito bem que quando crescemos, temos um mundo enorme e um tanto quanto hostil a enfrentar, e precisam nos preparar. Difícil sermos 100% honestos quando aquela tia chata vem com um elogio descabido, numa hora inoportuna. Mas por educação, agradecemos e damos nosso jeitinho de nos retirarmos do ambiente. Acho que o que estamos discutindo vale para qualquer mercado e situação profissional, independente de quem seja. A verdade e a honestidade abrem portas, nos mostra mais fortes, mais corajosos e entusiasmados. Quando acreditamos no que estamos dizendo, em nossa verdade, acabamos sendo mais íntegros, empolgados. E essa paixão e convicção, contagiam.
 
Eu, quando comecei minha carreira na propaganda, era apaixonada pelo que fazia. Me desafiava pela simples motivação de me provar ser capaz de superar barreiras. E isso sempre me ajudou bastante. Argumentava o que poucos tinham coragem, era até um pouco “entrona” para o cargo e diante da audiência que me encontrava. Mas minha certeza me dava a coragem de ser verdadeira com meus sentimentos. Curioso foi que numa dada ocasião, me lembro que o presidente da agência que eu trabalhava resolveu sentar no meio do atendimento aos clientes, no caso, o departamento em que eu trabalhava. Queria observar os funcionários mais de perto. Já tinha conhecimento de ordens da matriz em Paris que muito em breve haveriam cortes de funcionários, e ele quis conhecer melhor o fluxo da empresa, para tomar decisões com mais sabedoria. Para meu constrangimento, aquele homem tão elegante e que poucas vezes eu havia cruzado pelo corredor, resolveu sentar exatamente na minha frente, em um andar com mais de 50 pessoas, foi justo alí que a criatura resolveu colocar seu “puxadinho”, ou mesa improvisada, e ficou. E ia trabalhar alí pelos próximos 2 meses. No início eu não conseguia nem raciocinar. Minha reação foi imediatamente querer ficar o mínimo de tempo sentada em minha mesa, e esperava ele ir para alguma reunião para poder fazer os meus telefonemas profissionais. Quando se trabalha na interface de agência e clientes, o que mais se faz é falar ao telefone, alinhar demandas, verificar informações, e eu nunca falei tão baixo em toda minha vida.
 
Não sou considerada uma pessoa tímida, mas meu cargo era relativamente baixo na época, e ao invés de tentar impressionar o engravatado, tudo o que sentia era desespero. Era como imaginar que estaria sendo observada, nos primeiros dias de aula. Com o tempo, e a quantidade de trabalho que eu tinha, fui me esquecendo que ele estava por alí. E quando me lembrava, tinha certeza de que sua atenção não estaria em mim. A gente se acostuma com qualquer situação, e ela deixa de ser um “bicho de sete cabeças”. Logo, saí de férias, e fiquei 15 dias fora.
Na volta, e para minha surpresa, minha diretora na época me chamou para conversar. E foi alí que tive uma lição que carrego comigo até hoje, e que foi bem gostoso de ouvir naquele dia, mas que nem imaginava. O tal presidente ocupadíssimo prestava mais atenção do que pensei, e quando saí de férias um belo dia, casualmente, perguntou à minha chefe: “Ei, onde está a menina que trabalha com você?”, e quando ela se explicou, ele disse: “Decidida ela, não? Vejo ela falar ao telefone com nossos clientes, e me pergunto”, e completou “Ou ela está tão certa em tudo o que diz, que ainda teremos mais lucro, ou ela não deve ter a menor idéia do que fala e perderemos todos os clientes”.
Fiquei surpresa com o comentário, e feliz, até porque sempre fui muito cuidadosa em meu trabalho, e também porque nunca perdemos nenhum cliente. Refletindo o elogio, o curioso foi que minha primeira reação quando ele se mudou para minha frente foi querer me esconder, sumir e fazer o mínimo de barulho possível para passar despercebida. Minha única preocupação era ele me ouvir falando alguma besteira. Com o tempo, e por não conseguirmos nos esconder atrás de máscaras por muito tempo, percebi que fui me soltando, e justamente foi de minha verdade que ele gostou mais. Por que o presidente de uma empresa gostaria mais de uma funcionária que mal para na mesa, do que de uma funcionária dedicada? Nossa mente, mente. E nos trai o tempo inteiro, criando fugas e barreiras. Nos engana de nos expressarmos e sermos como deveríamos, honestos com o que sentimos. Quando nos apaixonamos, montamos um personagem que achamos que irá agradar. Quando vamos conhecer um chefe, uma sogra, um artista ou alguém de um cargo respeitado, nos escondemos atrás de um desconforto, de uma pessoa que não retrata a nossa verdade. E 99% dessas vezes, perdemos com isso. E perdemos oportunidades de gostarem de nós pelo que somos. Não seremos sequer lembrados se formos iguais a todo mundo, se tentarmos seguir o status quo, ou padrões sociais. Mas o que irá chamar atenção é não só o “sermos diferentes, e únicos”, mas principalmente porque quando somos autênticos com o que somos, somos felizes, inteiros. E injetamos paixão em nossos atos. Claro, é muito gostoso ser livre, ser inteiro e honesto. E isso exala um “algo a mais” que as pessoas gostam, e se identificam.
 
Na música isso não é diferente. Legal quem curte funk, faz funk, produz funk. Se aquilo faz parte de sua verdade, se você foi criado numa comunidade com essa crença, acho bem autêntico. Embora meu gosto pessoal não seja por um ou outro ritmo, sou muito curiosa e intrometida, procuro saber, entender, e respeito demais qualquer cultura. Mas sinceramente, não consigo engolir a “modinha”. Acho bizarro um tanto de patricinhas sem nenhum rebolado gravarem funk, só porque está na moda. Sei lá pra vocês gente, mas não combina. O mesmo vale para qualquer coisa. E ainda sem preconceito, se a mesma patricinha gostar de funk genuinamente, a gente vai sentir, vai saber. E isso pode até ser legal. Mas o que estou dizendo é que, o que não é autêntico, não rola. Pode até fazer um “sucessinho”, porque sabemos que o que chama atenção hoje na fama da internet é o conteúdo “fofo”, “vulgar”, “engraçado/bobo”, estilo os memes, “o sensacionalismo/notícias do momento” e é praticamente isso. Sou super a favor da internet, e da democracia que vem dela. E vamos discutir esse tema mais a fundo numa outra ocasião. Mas sabemos também que a fórmula “curtidas/compartilhamento” vem de algo que se sobressaia em meio a tanta informação. Somos impactados, dizem as pesquisas, por mais de 70 mil assuntos e estímulos diariamente na internet. Então não queira ter seu vídeo compartilhado por ser “bizarro”, seja você e faça com que as pessoas admirem seu trabalho, mais do que compartilhem ou curtam, sigam o seu canal e se tornem verdadeiros fãs de quem você é. Esse sim será um reconhecimento pessoal maravilhoso. Porque, o reconhecimento do personagem que você pode construir, esse tem prazo de validade. E não vai te dar o maior orgulho do mundo, ser amado por ser alguém que não é verdadeiramente você. Pense nisso. ;)
 
Camila Chagas