Conceito de disciplina e indisciplina

A vida em sociedade pressupõe a criação e o cumprimento de regras e preceitos capazes de nortear as relações, possibilitar o diálogo, a cooperação e a troca entre membros deste grupo social.

A escola, por sua vez, também precisa de regras e normas estabelecidas para orientar o seu funcionamento e a convivência entre os diferentes elementos que nela atuam. Nesse sentido, as normas deixam de ser vistas apenas como prescrições castradoras, e possam a ser compreendidas como condição necessária ao convívio social.

A Indisciplina, nesta ótica, passa a ser vista como atitude de desrespeito, de intolerância aos acordos firmados, de intransigência, do não cumprimento de regras capazes de pautar a conduta de um indivíduo ou de um grupo.

Segundo LA TAILLE (1994, p.09) as crianças precisam aderir às regras (que implicam valores e formas de condutas) e estas somente podem vir de seus educadores, pais ou professores. Os limites implicados por estas regras não devem ser apenas interpretados no seu sentidos negativos, o que não pode ser feito ou ultrapassado. Devem também ser entendidos no seu sentido positivo, o limite situa, da consciência de posição ocupada dentro de algum espaço social – a família, a escola e a sociedade como um todo.

Partindo destas premissas, no plano educativo, um aluno indisciplinado não é entendido como aquele que questiona, pergunta a toda hora, que não respeita a opinião e sentimentos alheios, que apresenta dificuldades em entender o ponto de vista do outro e de se auto-governar (no sentido expresso por Vygotsky (1984), quem não consegue compartilhar, dialogar e conviver de modo cooperativo com os seus pares. Neste caso, a disciplina não é compreendida como mecanismo de repressão e controle, mas como conjunto de parâmetros, que devem ser obedecidos no contexto educativo, visando a uma convivência e produção escolar de melhor qualidade).

Os postulados defendidos por VYGOTSKY, ressaltam claramente o papel crucial que a educação tem sobre o comportamento e o desenvolvimento de funções psicológicas complexas, como agir de modo consciente, deliberador e de autogovernar. Em outras palavras, o comportamento indisciplinado é aprendido. Baseando-se nestas premissas, podemos inferir, portanto, que o problema da indisciplina não deve ser encarado como alheio à família nem tampouco à escola, já que, na nossa sociedade, elas são principais agências educativas. (VYGOTSKY, 1987,p.93)

Na concepção de AQUINO (1996, p.47), a escola e a família são as duas instituições responsáveis pela educação num sentido amplo. O processo educacional depende da articulação desses dois âmbitos institucionais. Um não substitui o outro, devem sim, complementar-se. Se tanto a família como a escola são as principais responsavéis pela formação da criança ou o adolescente, é preciso que haja coerência entre princípios e valores de uma e outra, evitando confrontos entre professores, alunos, família e escola, o que favoreceria a rebeldia e a indisciplina dos alunos.

Vasconcellos (1993, p.42) se refere à questão da disciplina como consciente e interativa, portanto, estendida como um processo de construção da auto-regulação do sujeito e/ou grupo, que se dá na interação social e pela tensão dialética adaptação-transformação, tendo em vista atingir conscientemente um objetivo.

Conforme o exposto acima, a indisciplina escolar constitui um dos desafios mais críticos com os quais se defrontam as instituições de educação básica, públicas e privadas. Ela abrange diversas formas e mecanismos de expressão, e reflete um grande grupo de causas de diversas naturezas. Nas escolas, a indisciplina não constitui apenas um fenômeno atrelado a determinados comportamentos de indivíduos particulares, mas pode ser pensada como um fenômeno cultural, bem como institucional e psicossocial.

Enfim, partindo do pressuposto de que as transformações pelas quais estamos passando são frutos da história do homem, logo, da sua própria história, entende-se que a indisciplina é gerada em resposta às várias mudanças que são ou não bem quistas por eles; que a disciplina é o resultado do processo educativo, o qual deve objetivar a formação integral do indíviduo, respeitando suas diferenças e, ao mesmo tempo, proporcionando condições para integrá-las, adquirindo assim, resultados positivos nas relações pessoais e no citado processo. Isto vem de encontro às palavras de FREIRE, citado por Vasconcellos (2000, p.41):

Ninguém, disciplina ninguém. Ninguém se disciplina sozinho. Os homens se disciplinam em comunhão, mediados pela realidade”.

Sobre Elaine Marini 16 Artigos
Psicóloga graduada em Psicologia desde 1986, Especialista em Psicologia Clínica e Manejo Psicológico na cirurgia bariátrica; pós graduada em Psicologia Transpessoal, Psicologia Hospitalar e Gestão Escolar. Escritora com 4 livros editados na área de Psicologia. Atualmente Chefe do setor de Psicologia hospitalar no Hospital Cruz Azul em São Paulo.